quinta-feira, 25 de julho de 2013

RetroComics:: Superman - Entre a Foice e o Martelo

[ por Rafael Nunes ]


Imagine, por um breve momento, uma mudança drástica na mitologia do Superman. O que aconteceria se o filho de Krypton não tivesse caído em Kansas (EUA), mas em algum lugar da Ucrânia? E se esta criança tivesse sido criada por fazendeiros cujos valores eram a verdade, justiça e algo diferente do “estilo de vida americano”? Como a chegada de um super-ser poderia alterar uma sociedade, supostamente, igualitária e como mudaria os rumos da Guerra Fria?


Em Superman: Entre a Foice e o Martelo, Mark Millar expande uma premissa intrigante, auxiliado pelo traço delicado e, ao mesmo tempo, poderoso de Dave Johnson e Kilian Plunkett. A história de Millar consegue fundir, com maestria, eventos e figuras da vida real com personagens próprios dos quadrinhos. (Stalin, cujo nome pode ser traduzido ‘grosseiramente’ como ‘homem de aço’, tem uma participação ativa, assim como Eisenhower, JFK, e a ansiedade da sociedade em relação ao terrorismo.)




Os ‘Estados’ não são tão ‘Unidos’ nesta versão invertida do cenário global, os EUA é mostrado como uma nação com a economia em ruínas. Em uma manobra perversa, o destino do capitalismo americano está nas mãos de um cientista brilhante e amoral chamado Lex Luthorum homem com ambições presidenciais, e sua esposa Lois. O obsessivo e brutal Luthor deve deter a expansão Soviética e impedir o eclipse do ocidente, armado somente com uma joia alienígena.

A influência de Watchmen (a obra-prima de Alan Moore e Dave Gibbons) é detectada na conclusão simetricamente executada, principalmente na forma como o autor sugere como um superser pode, inadvertidamente, mudar sua sociedade adotiva e a geopolítica de todo o mundo.

A alegoria de Mark Millar possui, em sua essência, um grande estudo de personalidade, 
mesmo que aqui se demonstre através de um herói vindo de um planeta morto. A reversão dos 
rumos da política e a inversão daquilo que nos é familiar em relação ao mundo, inevitavelmente 
levanta questões sobre a natureza humana e a forma como as sociedades funcionam.


Em uma época em que os valores dos sistemas sociais e religiosos sofrem sérios questionamentos e acabam sendo defendidos de forma ainda mais desesperada, Mark Millar joga ainda mais luz sobre as discrepâncias  entre a teoria e a prática e oferece um lembrete de como boas intenções podem ter consequências inesperadas. 


Com uma complexidade moral e uma arte que mescla o Expressionismo Soviético com o estilo dos quadrinhos da década de 1950, Superman: Entre a Foice e o Martelo é um trabalho poderoso e indispensável na coleção de qualquer pessoa amante de uma boa literatura, seja ela em quadrinhos ou não.

Acompanhem o trabalho de Rafael Nunes
[TransformersComics, Baú da Marvel, Baú da DC e Superscans]
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