quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Por que o Superman continua tão popular?

PAUL HARRIS
DO "OBSERVER", DE NOVA YORK
 
O trailer da tão aguardada versão cinematográfica deste ano da história do Superman contém um momento que parece subverter um dos mais famosos personagens do cenário cultural americano. Inicialmente, o vídeo conta a história familiar de uma criança de um planeta distante, criada por agricultores do Kansas que buscam manter seus poderes secretos, e que o chamam pelo nome humano de Clark Kent.
Mas, depois de salvar um ônibus cheio de colegas do afogamento, o traumatizado adolescente Clark confronta seu padrasto, que está preocupado de que ele tenha revelado sua verdadeira natureza. "O que eu deveria fazer? Simplesmente deixá-los morrer?", pergunta Clark. "Talvez", responde seu pai.
Henry Cavill (foto) vive o Superman no filme "O Homem de Aço", que estreia em julho de 2013
Henry Cavill (foto) vive o Superman no filme "O Homem de Aço", que estreia em julho de 2013
Trata-se de uma chocante ambiguidade moral no universo do Superman, em que tradicionalmente fica claro o que é certo e errado. Com a trilha sonora melancólica e os planos artísticos, esse é o mais forte indício até agora de que o Superman de 2013, interpretado pelo ator britânico Henry Cavill, será bastante diferente.
Desde a sua primeira aparição pela Action Comics, em 1938, o Superman se adapta aos novos tempos. Depois que a Segunda Guerra Mundial estourou, ele mudou seu slogan, deixando de lutar só "pela verdade e pela justiça" para defender "a verdade, a justiça e o jeito americano". Isso se manteve na década de 1950, quando ele virou um símbolo do musculoso patriotismo americano, incapaz de fazer o mal.
Mas, quando a nação enfrentou as turbulências dos anos 1970 e abraçou uma cultura mais diversificada, Christopher Reeve deu qualidades mais humanas ao Superman. Na adaptação cinematográfica da saga das HQs feita em 1978 por Richard Donner, o sacrifício repentinamente se tornou parte do apelo do Superman.
Isso continuaria até o filme de 2006 estrelado por Brandon Routh, quando, com um cristão evangélico na Casa Branca e em meio à noção de que a guerra ao terrorismo seria um conflito contra o islamismo, o Superman foi retratado como uma figura quase semelhante a Cristo. Já em 2012, uma nova história da DC Comics fez o Superman encerrar sua carreira numa redação de jornal para virar blogueiro.
"O Superman muda com notável rapidez, e ainda assim, paradoxalmente, consegue projetar uma idéia de virtude imutável", disse Benjamin Saunders, professor da Universidade do Oregon e autor de um estudo acadêmico sobre os super-heróis, intitulado "Do the Gods Wear Capes?" ("Os deuses vestem capas?").
Então como será o Superman de 2013? Mesmo com as familiares alusões à infância no Kansas e ao alter ego Clark Kent, ele deve refletir nosso mundo moderno, que é incerto e teme o colapso, seja ele econômico, político ou ambiental.
Ao buscar refletir esta época turbulenta, Zack Snyder, o diretor do novo filme (que se chama "O Homem de Aço" e tem lançamento previsto para junho), vai mexer com uma das mais poderosas figuras ficcionais do século 20. Os fãs geralmente gostam de debater qual super-herói derrotaria o outro numa briga, mas no universo da comercialização da imagem não há dúvida --o Superman vence sempre. "Ele é o primeiro herói global", disse Larry Tye, autor de "Superman: "The High-Flying History of America's Most Enduring Hero" ("Superman: os altos voos históricos do mais duradouro herói da América", em tradução livre).
De fato, a influência do Superman é tamanha que ele encabeça o crescente campo dos estudos acadêmicos sobre os heróis de HQs e seu papel na sociedade. Tais figuras são apontadas como ocupantes da mesma função social dos mitos da Grécia e Roma antigas. Eles são criaturas excêntricas, batalhando por ideais elevados e nos ensinando lições morais.
"Precisamos de mitos para nos ensinar virtudes. Ao final, essas virtudes precisam ser encarnadas por uma pessoa. A mitologia sempre desempenhou essa função", disse Harry Brod, professor de filosofia da Universidade do Norte de Iowa.
Alguns levam mais longe o argumento dos ensinamentos morais do Superman, vendo um poderoso conceito filosófico por detrás deles. Em seu livro, Saunders dedica um capítulo ao Superman, no qual ele sugere que a imensa popularidade do personagem é resultado do fato de ele encarnar o bem. "Em termos da cultura popular do século 20, ele captura a noção do ideal platônico do bem. Quando o Superman é bem feito, não fico constrangido em chamá-lo de uma bela ideia", disse Saunders.
Outros especialistas no funcionamento das culturas humanas vão ainda mais fundo em seus esforços para explicar a extraordinária longevidade da figura do Superman.
O filme de 2006 que transformou o Superman em uma figura semelhante a Cristo talvez tenha chegado mais perto da essência do Superman do que qualquer outra representação. Basta pegar alguns dos principais atributos do Superman. Ele desce à Terra de um mundo muito distante, que fica no céu. Seu verdadeiro pai lhe dá conselhos enquanto ele caminha entre meros humanos.
NERD JUDEU
A não ser que você pense nele como Moisés. Com uma ligeira mudança de ênfase, pode-se olhar a história da origem do Superman e ver o órfão de um povo cujo mundo original foi destruído. Ele é criado por uma família adotiva como se fosse um deles, ao mesmo tempo em que esconde sua verdadeira identidade. Não é um grande salto enxergar a partir daí a história do exílio judeu no Egito.
Na verdade, as origens judaicas do Superman já motivaram imenso interesse. Os criadores da HQ original, Joe Shuster e Jerry Siegel, eram ambos judeus. Brod escreveu um livro, "Superman Is Jewish?" ("Superman é judeu?"), que lista os temas judaicos na história.
Alguns são religiosos, como o paralelo com Moisés, mas outros se baseiam em visões mais contemporâneas do judaísmo moderno. Por exemplo, o Superman é um forasteiro no mundo onde se encontra. Ele é literalmente um alienígena. Seu alter ego Clark Kent é um "geek", escondendo-se atrás de óculos e posando de intelectual, e não de herói físico.
Brod vê nesses trajes uma fantasia judaica e masculina --mas que ecoa junto a meros mortais de qualquer lugar. "Clark Kent é tímido. Ele é um nerd judeu. Ele é fraco e covarde", disse Brod. "Mas aí... mal sabem vocês! Por baixo desse exterior está o poder do Superman. Todo mundo consegue se identificar com isso, mas acredito que seja amplificado pela experiência judaica."
Mas provavelmente não seria sensato atribuir a popularidade do Superman a uma determinada origem étnica. Porque, embora ele em geral seja visto como americano, o personagem em grande parte se expandiu para além disso.
Quando Tye estava pesquisando seu livro, divulgou um apelo por histórias sobre o Superman. Ele queria que as pessoas lhe contassem o que o herói significava para elas. Esperava que a maioria das respostas viessem dos EUA, mas não foi assim. "Elas vieram da Europa e da África, de todo lugar", disse Tye.
E, no fim das contas, talvez não importe como Snyder dirige "O Homem de Aço", em 2013. Ele pode levar o Superman para uma direção mais sombria, pode lançar um filme mais adequado às salas de cinema de arte do que aos multiplexes. Pode fazê-lo representar o mundo sinistro e confuso de 2013. Mas, no final, quanto mais ele mudar, mais o Superman permanece igual.
Porque o Superman não é só alguma espécie de ser incomparável voando alto sobre nós. Na projeção dos nossos desejos, esperanças e medos, Superman somos nós.
Tradução de RODRIGO LEITE.
 
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